Cultura
Cai o Pano, Sobe o Tom: Artistas Transformam Encerramento do FIT em Palco de Luta Pela Cultura em Rio Preto
Manifesto contra a Câmara e a Prefeitura cobra a aprovação de 1% do orçamento para o setor cultural, expondo o paradoxo de uma cidade que celebra a arte em um festival internacional, mas negligencia seus próprios artistas.
SÃO JOSÉ DO RIO PRETO, SP – O que deveria ser um momento de celebração e aplausos se transformou em um ato potente de resistência. Na noite deste último sábado (26 de julho), o encerramento do Festival Internacional de Teatro (FIT), um dos mais importantes da América Latina, teve seu roteiro alterado por aqueles que são a razão de sua existência: os artistas. Em vez de reverências, o público presenciou um grito coletivo de repúdio direcionado à Câmara Municipal e à Prefeitura de São José do Rio Preto.
As imagens que circulam, gravadas em vídeo por participantes e pela imprensa local, são emblemáticas. No palco, em meio à programação oficial, artistas e produtores culturais ergueram faixas e tomaram o microfone. As palavras de ordem, como “Cultura não é gasto, é investimento!” e “1% Para a Cultura Já!“, ecoaram pelo espaço, transformando a atmosfera festiva em um campo de batalha político e ideológico. A mensagem era clara, direta e inegociável: respeito e dignidade para o setor cultural.
Confira o vídeo em circulação @InformeRioPreto:
O Estopim da Revolta: A Luta Pelo 1%
Para o leitor que não acompanha a política local, o motivo da indignação pode parecer técnico, mas seu impacto é devastador para a cena artística da cidade. A classe artística protesta contra a não aprovação de uma emenda à Lei Orgânica do Município que destinaria, no mínimo, 1% do orçamento total de Rio Preto para a Cultura.
O que isso significa na prática? Esse 1% não é apenas um número. Ele representa a garantia de recursos para a manutenção de teatros, centros culturais, bibliotecas; o fomento a grupos de teatro, dança e música locais; a criação de editais que permitem o surgimento de novos talentos; e a implementação de políticas públicas culturais duradouras, que não dependam da boa vontade do governante de plantão. Sem essa garantia orçamentária, os artistas ficam à mercê de um “pires na mão”, lutando anualmente por verbas que, muitas vezes, são vistas como supérfluas e são as primeiras a serem cortadas.
A recusa da Câmara em aprovar essa emenda foi o golpe final, a gota d’água que fez transbordar um copo cheio de descaso e promessas vazias.
O Paradoxo de Rio Preto: Palco para o Mundo, Bastidores de Luta
A ironia da situação é gritante e foi o ponto central do protesto. Rio Preto orgulhosamente sedia o FIT, um evento que atrai artistas do mundo inteiro, movimenta a economia e projeta o nome da cidade internacionalmente. Contudo, enquanto os holofotes globais estão apontados para cá, os artistas locais – que mantêm a cidade respirando arte durante os outros 355 dias do ano – são forçados a lutar por migalhas.
É como uma banda que lota estádios em uma turnê mundial, mas não tem dinheiro para consertar seus instrumentos ou pagar o aluguel do estúdio de ensaio. A fachada é de sucesso, mas a estrutura está ruindo por falta de investimento na base. O manifesto dos artistas durante o FIT expôs essa contradição de forma visceral: “Vocês querem a festa, a foto, o prestígio, mas se recusam a pagar a conta da existência da arte em nossa própria casa”, parecia dizer cada faixa erguida.
#CulturaÉResistência: O Espírito do Rock no Teatro
A atitude vista no palco do FIT tem tudo a ver com a essência do rock’n’roll. É a insubordinação contra um sistema que oprime, é o uso da própria arte como uma arma para o comentário social e a mudança. Assim como o The Clash cantava sobre as injustiças de Londres ou os Racionais MC’s narravam a realidade da periferia de São Paulo, os artistas de Rio Preto usaram sua plataforma para jogar a verdade na cara do poder.
O ato não foi um pedido, foi uma cobrança. Foi a materialização da hashtag #CulturaÉResistência. Eles mostraram que a arte não é apenas entretenimento passivo; ela é uma força viva, pulsante e questionadora, que deve incomodar e provocar reflexão. Em um país onde a cultura é constantemente atacada e desvalorizada, cada ato como este é um riff de guitarra distorcido no silêncio do conformismo.
O FIT 2025 pode ter chegado ao fim, mas o ato final em Rio Preto não foi um aplauso, e sim um grito. Um grito que exige ser ouvido pela Prefeitura e pela Câmara, e que promete não se calar tão cedo. O palco, agora, é a própria cidade, e a peça em cartaz é a luta por um futuro onde a cultura seja tratada como pilar, e não como ornamento. A plateia – a sociedade – está assistindo atentamente.
Acompanhe a mobilização nas redes: #FIT2025 #RioPreto #CulturaÉResistência #1PorcentoPraCultura #ForaCensores
Por Diogo Neves